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A Hora Mais Escura

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty) - 2012. Dirigido por Kathryn Bigelow. Escrito por Mark Boal. Trilha sonora original composta por Alexandre Desplat. Direção de Fotografia de Greig Fraser. Produzido por Kathryn Bigelow, Mark Boal e Megan Ellison. Columbia Pictures, Annapurna Pictures e First Light Production / USA.


Continuo acreditando que serão necessários, no futuro, um bom número de filmes revisionistas para desfazer a visão preconceituosa e reacionária da cineasta Kathryn Bigelow sobre a atuação dos Estados Unidos no oriente médio. O que ela fez em suas duas últimas obras pode ser facilmente confundido com uma propaganda ideológica encomendada pelo governo americano, tamanha a exaltação da atuação das tropas no Iraque e no Afeganistão, que, convenhamos, não está tão distante do terrorismo que elas dizem combater. Em A Hora mais Escura (2012) Bigelow chega ao ponto de tentar justificar a tortura contra prisioneiros de guerra, prática que constitui, ao meu ver, uma distorção de tudo aquilo que os americanos alegam defender. Tal como em Guerra ao Terror (2009), neste filme fica difícil separar a ideologia defendida dos demais aspectos, mas, mesmo considerando reprovável a forma absurdamente parcial com  que ele recria os eventos deste período histórico recente, tentarei avaliá-lo por aqueles que são seus melhores atributos. 

A Hora mais Escura retrata as atividades de uma equipe de elite do exército americano, a responsável pela  suposta captura e morte do terrorista Osama Bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que fora enviada para o oriente médio para interrogar prisioneiros de guerra. À princípio ela demonstra uma certa sensibilidade às práticas usadas para forçar os capturados a entregarem outros terroristas e a darem detalhes de suas operações, no entanto, com pouco tempo ela se adapta à esta realidade e se convence de que a tortura é o único meio de arrancar a verdade dos prisioneiros, que tentam permanecer fiéis às suas crenças até o limite do suportável. Em um dos interrogatórios surge uma pista frágil que pode levar à descoberta do paradeiro de Bin Laden e a agente se agarra à esta pista com todas suas forças. Contrariando orientações e sem se preocupar com o descrédito por parte de seus superiores, ela insiste em averiguar a fundo este que pode ser o seu grande achado, se mantendo firme no propósito de fazer o líder da al-Qaeda pagar pelo que fez ao seu país.


Durante todo o filme há a impressão de que a trama é imparcial e de que ela mostra aquilo que os Estados Unidos tentam esconder, mas não se enganem, até isso faz parte da estratégia e da propaganda ideológica feita pela produção, tudo o que vemos nela, inclusive as atrocidades, está previamente justificado (tenho que reconhecer a genialidade do roteiro neste aspecto, ainda que seja algo negativo em uma análise que vá além das questões cinematográficas). Na primeira sequência do filme, ouvimos uma conversa ao telefone que se dá entre uma atendente (aparentemente dos bombeiros) e uma mulher que estava em uma das torres do World Trade Center quando um dos aviões foi lançado contra ela, este diálogo choca e desperta a sensibilidade do espectador, preparando-o para a vingança que será iniciada e para a aceitação das práticas que logo serão retratadas. Olho por olho, dente por dente, esta é a ética à qual o filme recorre em sua cruzada em favor de uma pseudo-democracia e contra um terrorismo, que o governo americano encontraria facilmente em suas próprias práticas, caso deixasse de se ver como o juiz onipotente do mundo.


O filme busca despertar em seu público o mesmo sentimento de vingança que o move, para tal ele transforma qualquer árabe em um potencial terrorista e qualquer prisioneiro em um detentor de alguma verdade que se revelada pode impedir que um novo ataque aconteça. Em boa parte do desenrolar da trama, as cenas de tortura são intercaladas com outras que mostram atentados que realmente aconteceram, isto para nos lembrar que os terroristas (todos os muçulmanos de acordo com o que o filme dá a entender) são desumanos e por isso merecem ser tratados como tal. Os árabes são divididos pelo roteiro entre aqueles que optaram por colaborar com os soldados americanos (agindo como espiões e/ou delatores) e aqueles que merecem ser torturados e mortos por serem inimigos da democracia; não há meio termo. Já dentre os agentes e soldados que está a serviço do Tio Sam só existem heróis; dentre estes estão o torturador que brinca com macaquinhos nas horas vagas,  demonstrando sua sensibilidade; a agente, mãe de duas filhas, que demonstra sua coragem arriscando a própria vida em busca de informações e a personagem central, uma óbvia personificação daquele cidadão reacionário que teima em acreditar que matando um terrorista o mundo estará novamente à salvo e cada um de seus conflitos resolvidos... 


Não tenho dúvidas de que a Jessica Chastain seja a atriz certa para o papel (apesar de eu não gostar de vê-la em um filme defensor de uma ideologia tão condenável), ela consegue com uma destreza formidável nos convencer tanto da fragilidade quanto da força de sua personagem, ela está excelente tanto nos momentos em que sente repulsa, medo ou asco, quanto naqueles em que se impõe frente a pessoas mais fortes e poderosas que ela. A construção de sua personagem também está condizente com a proposta do filme, em sua fraqueza há uma grande potencialidade de identificação, afinal ela se considera uma vítima do terrorismo, sentimento que é compartilhado por inúmeras pessoas, principalmente nos Estados Unidos, e a força que ela demonstra ter em algumas passagens a transforma no tipo de herói que cada uma destas pessoas buscam. Este processo de identificação e admiração é crucial, pois é através dele que o filme transmitirá boa parte de sua carga ideológica. A intenção do roteiro é fazer com que cada espectador passe pelo mesmo processo de transformação vivido pela personagem, através do qual ela passa a aceitar as práticas condenáveis que o filme retrata. 


A Hora Mais Escura adota um tom quase documental em sua narrativa, estratégia muito bem utilizada para nos convencer do realismo daquilo que nos é mostrado, a naturalidade das imagens capturadas por uma câmera instável que tremula o tempo todo, atenua a tensão e reforça a ideia de que aquilo que estamos vendo não é tão somente um filme, mas uma reconstrução quase perfeita da realidade, algo próximo do que poderíamos ver em um tele-jornal, por exemplo. Tudo isso denota uma excelente qualidade técnica, mas é ao mesmo tempo algo perigoso, pois corremos o risco de tomarmos como real o que é apenas uma visão unilateral e tendenciosa dos fatos. Outros aspectos técnicos do filme também evidenciam o enorme cuidado que se teve com sua produção. Figurinos, enquadramentos, escolha das locações, direção de arte e a trilha sonora composta pelo sempre competente Alexandre Desplat, funcionam muito bem em favor da narrativa e daquilo a que ela se propõe. 


Tenho que reconhecer que A Hora Mais Escura não deixa a desejar em nenhum de seus aspectos técnicos e artísticos. Tento esquecer do quão reprovável é sua abordagem ideológica para apontá-lo como um dos melhores filmes da temporada (considero merecidas cada uma de suas indicações ao Oscar). Seu roteiro, apesar de toda a parcialidade, é muito bem escrito e a edição e a montagem dão a ele um ritmo frenético que não permite que ele se torne cansativo, mesmo sendo predominantemente um 'filme de gabinetes'. Apesar de tudo que mencionei no decorrer desta resenha, acho que ele merece ser assistido e principalmente debatido por todos, a minha recomendação é a de que ele deve ser visto com o senso crítico o mais aguçado possível, principalmente em relação às verdades que ele tenta nos vender. Recomendo (com as mesmas ressalvas com as quais recomendaria obras clássicas do D. W. Griffit e da Leni Riefenstahl)! 

 
A Hora Mais Escura ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama (Jessica Chastain) e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Montagem e Edição de Som.

Assistam ao trailer de A Hora Mais Escura no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

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